domingo, 22 de dezembro de 2013

O fim do início ao meio

Sei que a vida é um livro.
Que o autor, para não nos mimar,
não gosta de nos agradar sempre.
Deveria ser demitido, também acho.

Estar escrevendo tal livro,
falando para quem não quer ler,
isso, com certeza, deve desanimá-lo,
mas ele continua segurando a caneta.

Este livro é formado por um único texto.
Texto este que não segue as regras,
foge das normas da gramática,
dos padrões de concordância.

Domínios que o escrito não possui.
Da sua obra só se tira uma regra:
Razão. Sempre, nem que seja para ignorar.
Deixo escapar um sorriso irônico.

Bem melhor esquecer está ultima consideração.

Claro que existe razão em cada palavra dele,
uma dose de bom senso também,
coisa fundamental para qualquer autor,
ainda mais num trabalho dessa magnitude.

Te confesso, porém, que, embora contraditório,
amo os desfechos que ele cria
e recria conforme as situações vão se alterando.
Muito, muito melhor que o das novelas.

Percebi ao longo da historia fatos notáveis:

Isso que se chama de justiça não existe,
após um tombo sempre vem uma queda;
ler é um bom remédio para a alma e
sua vida tem mais valor para os outros.

Última observação: ele não te dá sinais
Mensagem. Recado. Bilhete. Nada!
Mensagem é o tipo de coisa que foge do seu feitio.
Está claro isso? Espero que esteja.

Que a vida é um presente! Tolice.
Me agrada mais vê-la como uma responsabilidade.
Veio essa conclusão de forma dura
como se fosse um peso ter de viver. Mas realmente é.

Uma pancada de um lado, e do outro
bofetada, tapa, murro, o que você prefere?
Não hesites em escolher. Você quer uma dica?
Na sua sanidade, cabe a você mudar o foco dele.

Cara, coroa, números entre um e seis, isso é sorte,
mas não é assim que são feitas as escolhas.
No fundo ele segue um farol que o guia.
coração. Não o dele, nem o meu, mas o seu.

Foram essas as considerações iniciais.
Quarenta eternidades de trabalho,
minutos para descrevê-las,
para introduzi-las ao menos.

Escrever, essa é a única atividade que lhe agrada.
Segundo o próprio autor, não eu, mas o que me escreveu,
você, como toda a obra, deve seguir o enredo.
Mas qual é esse enredo?

Eu agora imagino que deva ser o destino.
Gastei algum tempo para aceitar que ele existe,
um século mais ou menos,
dia após dia fui tentando criar esse conceito.

Para não surtar tive que me apegar a algo,
terminar tal conceito era uma obsessão,
de repente descubro a cura para minha sanidade.
Ler, como já disse, é o remédio.

Se você não crê no destino
ainda há tempo de repensar.
Cabe a ti defini-lo, a seu gosto,
um roteiro inabalável, ou um resultado do cotidiano.

Pouco me importa sua conclusão,
de útil sei apenas que você agora crê num destino.
Bom ter isso em comum com todos os leitores.
Humor, paciência e calma também podem ser importantes.

Diria que o grande autor é criativo,
que ele sempre arruma alguma forma de se satisfazer,
isso pode requerer algum tempo, mas ele gosta,
valoriza ainda mais o seu feito.

Seu maior desejo é se manter ocupado,
trabalho, trabalho e mais trabalho.
Afinal de contas ele não é humano,
de que adiantaria uma folga ou feriado?

Contas não são seu forte, por isso ele escreve.

Os humanos são seus personagens preferidos.
Textos onde eles aparecem são mais interessantes,
não costumam ter muita lógica, são mais irracionais.
São mais emotivos, mais vingativos
feitos de sentimentos complexos, opostos,
para irritá-los é muito fácil.
Serem dotados de uma suposta razão, deixa tudo mais engraçado.

Lidos, relidos e reescritos os humanos demandaram tempo,
mas o autor gostou de seus protagonistas.
Para eles agora faltava um cenário,
serem jogados no meio do nada era desperdício.

Sentidos. Emoções. "Razão". É necessário um palco a altura.
E um universo foi feito e não foi preciso muito tempo,
uma semana e já estava tudo pronto.
Coisa comum em serviços de urgência.

Eu novamente sou obrigado a rir. É muita coincidência.

Te pergunto se você notou alguma semelhança?
Afirmo, reafirmo e garanto, é mera coincidência isso.
Eu mesmo fiquei espantado ao saber que foram sete dias.
Senti, como posso dizer, esperança!

E isso é comum? Sentir esperança?
Muito. Afinal de contas o homem é assim,
meu eu se agarra a cada esperança e o nome disso é fé.
Coração e mente brigando criam tal fé.

Ficou confuso, mas continuemos falando do cenário.
Em algum lugar do universo foi jogado o homem
Pedaços, retalhos e trechos da história se passam lá.
Gastei mais tempo falando disso do que gostaria.

Algum objetivo agora precisava ser criado,
tempo e materiais foram gastos e não podia ser em vão.
Para deixar os humanos com medo foi criada a morte.
Recolhê-los após algum tempo é útil e criativo.

E se você morresse amanhã? E se você não morresse?
Estou querendo que você veja a importância da morte.
No enredo o objetivo criado é ficar vivo, simples assim.
Processo cruel esse, mas é um objetivo.

De imediato se nota que isso cria vagas para novos humanos.
Remontagem, reestruturação, novas histórias.
Mas por que tudo isso? Porque o autor gosta de trabalho.
Como existem novos humanos, existem novas páginas.

Ele agora tem o que escrever e ele quer escrever.
Não possui limite de tempo, pode brincar a vontade,
possui apenas uma criatividade tão grande quanto queira.
Manual foi, é e será o trabalho, com as mãos da imaginação.

De página em página se vê nascimentos e mortes,
instruções para os que estão vivos e querem permanecer assim,
esta história se banha em sangue, mas o autor não se comove,
tarefa difícil a sua, criar e matar por que assim deve ser.

Fica um pouco fora de controle,
mais e mais homens nascem, crescem, sofrem e morrem.
Difícil. Muito difícil aceitar isso,
um preço muito caro para se pagar.

Manual de instruções seria útil para quem sabe ler,
seria útil se os humanos gostassem de ler, quisessem ler.
Uma cura seria leitura, isso rima e me soa familiar.
Boa ideia, vou pedir a ele para mudar algumas coisas.

Ideia, ficou curioso para saber qual é?
Afinal de contas, pense, esse texto é um poema sem rimas.
De que adianta versos sem rimas, por que não prosa então?
Contas para se calcular a métrica devem existir.

Se ele quiser mais trabalho
eu proponho algo mais útil
Pudesse por rimas no texto
lê-lo seria algo mais fútil.

Não gostei de rimar, é muito trabalho,
estaria gastando mais tempo para dizer menos.
Nessa condição retorno aos versos-prosa,
situação, pelas evidências, mais cômoda para mim.

Seria interessante, porém vê-lo rimar.
Só que nada seria aproveitado, está tudo em prosa.
Resetar tudo e começar de novo, do zero,
e recriar o homem e o universo novamente, não, ele não fará isso.

Pronto! Larguemos a métrica e voltemos a vida.

Mas aonde havíamos parado? No manual de instruções.
Como pude me esquecer, desculpe-me, estava com a cabeça em rimas.
Não seria mais justo ele dar a faca e o queijo,
é algo besta de tão trivial: dar o livro e ensinar a ler.

Assim voltamos a um dos fatos notáveis do começo,
preciso lembrá-lo qual é ou Você pretende voltar no texto?
Refazê-lo seria besteira, não volte ao início,
novamente, para quem não se lembra, não existe justiça.

O autor não é justo, afinal de contas como ele seria justo?
Lado a lado com a justiça anda a convicção de certo e errado,
positivo e negativo, bem e mal, um e outro.
É como se você tivesse que escolher um entre seus filhos.

Que situação complicada, mas a justiça é um quebra cabeças e,
posso te garantir isso pelo que conheço do livro,
montá-lo é a arte de fazer escolhas para o bem da história.
Como se os finais justificassem os meios.

Achar que o mundo seria justo é ingenuidade.
Melhor, na minha opinião, é não ver só um lado da moeda,
mas se a moeda tiver apenas um lado, o seu lado,
até você entender o que estou dizendo será tarde.

Agora pense de um patamar mais geral,
todas as decisões possuem justiça e injustiça,
as mais simples e as mais complexas são assim,
tentativas de julgamentos são apenas escolhas casuais.

Me recordo agora de outro fato notável do início.
Lembram ou imaginam qual seja?
De certo é aquele que se refere a pessoa que menos te da valor:
Você. A sua vida tem mais valor para os outros do que para você.

Parece que perdi a noção ao falar isso,
que idiotice, você pode pensar, eu me amo, me valorizo,
ele, o autor da obra, porém, sabe que não é assim.
Oferece a vida as pessoas, mas atribui valor dela aos outros.

Uma morte é mais dolorosa para os que ficam,
resistência tola isso, medo do desconhecido,
grande parte das mortes não dói, claro,
para os que vão, mas nunca para os que ficam.

Te convido agora a encontrar a justiça nisso.
Esquecer, descansar, isso não constitui justiça.
Não é justo morrer, pois quem mais sofre são os outros.
Sei que você pensa assim, é injusto pra quem vai e pros que ficam.

Se você se agarrar a este exemplo dirá que eu menti acima.
Com a morte não há justiça então, pelo menos na maioria das vezes.
Você volta a ver só um lado da moeda, o lado humano.
Costuma ser vital a morte, pois nela vemos o temor, o consolo.

Ser vivo é ter a certeza que um dia se morrerá,
assim a justiça se faz na democracia. E no medo?
Também. Pois uma situação pode ser muito dolorosa,
mas não é morte, não é o nosso maior medo.

Eu preferiria não ter falado disso,
ainda mais dessa maneira, tão realista.
Consigo, porém, ser menos duro do que a maioria,
mesmo tendo dito tudo isso.

Que você leia isso e reflita, pense um pouco,
demore um tempo refletindo sobre as minhas palavras.
Uma vida ainda é a coisa mais importante que se pode ter,
vida, porém, que terá seu fim em algum momento.

Mas infelizmente o grande escritor não pensa assim.
Ele vê as vidas como instrumentos de trabalho,
vai utilizando-as para escrever sua história.
Ser um escritor requer essa imparcialidade, essa dose de drama.

Remontado as vidas, refazendo os corações, as almas,
do modo que achar mais prático e intrigante, do seu jeito.
Jeito esse que não cabe discussões, é como dizem, perfeito,
certo, único, unânime. Não, unânime não, isso eu garanto.

Eu por exemplo discordo em muitos pontos. E ele vai entender.
Espero. Espero mesmo que ele entenda. E ele irá compreender.
Hoje também estou sendo escritor e compreendo meus personagens.
Sei que, tecnicamente, nesse texto não há personagens. Mero detalhe.

Que de agora em diante se crie um personagem então.
Você tem alguma sugestão, nome, sexo, idade, gostos?
Ama a quem esse personagem? Ele ama? Pois se ama temos que criar outro.
Outro, um segundo personagem, não! Já sei, o personagem é você.

Torço para que goste da ideia, você se tornou o meu personagem.
Para que eu quero um personagem? Para nada, mas pode ser útil.
Que problema existe nisso? Nenhum! É até bom, ele poderá opinar,
ele poderá sentir, pensar, viver e, talvez, morrer no final.

Te garanto que esse talvez não vai existir.
Faça de mim um amigo e acredite nisso, te quero bem,
feliz, alegre, mas veja que eu decido a história, eu narro os fatos.
Pois não existem outras opções, sou eu quem precisa escrever.

Você pode querer escrever, saber escrever, mas merece escrever?
Merece. Claro que merece, mas não essa história.
Isso é narcisismo, mas como disse, sou eu quem precisa escrever,
é na minha mão que se encontra a caneta.

Meio grosso eu fui, mas parar de ler é besteira,
contraditório, é imaturidade para de ler agora.
Não que eu queira te forçar a continuar, mas lembre-se:
é você o meu personagem, quer saber o final dele?

Verdade, mentiras o que você sugere para si? Amor?!
Amar não é uma escolha inteligente, você sabe disso.
Tanto que nem insiste muito nesse pedido
e eu não vou dar isso ao personagem, não por enquanto.

Esperar faz bem, vou deixar que ele amadureça,
que ele aprenda a viver e ganhe experiência,
a maturidade é fundamental antes do amor.
Pessoa que sofre é pessoa imatura. E ele ainda é.

Seja como for sei que é apenas uma cena da história,
feliz num momento, triste no outro, vivo em ambos.
Com o tempo tudo fará sentido e essa cena também.
Outro, como posso dizer, capricho do enredo.

Mas vejamos o que pode acontecer com o personagem agora,
não preciso ter pressa, pois ele já me rendeu estrofes,
precisa é agregar valor a história,
fazer sentido, dar sentido a sua participação.

Sentido, este é o verdadeiro motivo desse texto.
Pois a existência do homem deve possuir algum sentido.
Como você prefere se ver? Como um personagem,
foi feito apenas para encher a historia?

Dito, escrito e avaliado. Você é um só um personagem?
Esse fardo eu não carrego e espero que você também não.
Texto é algo muito pequeno para conter uma vida.
Não se menospreze, seja o seu próprio escritor.

Foi tudo uma ilustração até aqui, uma reflexão,
feito de imaginação, mas não de convicção, de afirmação.
Pela sua vida, pela sua alegria, se escreva sobre um pilar:
Razão. O único dom que você precisa.

Como as estrelas precisam da noite,
últimas histórias precisam de um fim,
palavras, em toda sua magnitude, precisam de um contexto.
Gostaria que você notasse o seu valor.

De todos os exemplos você é a noite, o fim, o contexto.
Dizer isso é dizer que você se faz necessário em si mesmo.
Que a sua vida deve ser seu sentido,
espero que note isso e que concorde.

Que tu não sejas tomado pela arrogância.
Você precisa dos outros também, do que eles te propiciam,
seja amigo, tenha amigos, crie amigos. Eles são parte de você.
Feliz é aquele que se banha da amizade alheia.

E quando estiver sozinho, no vazio da mente,
que a luz da razão te guie entre as emoções,
se localize na imensidão e crie sua rota,
algum destino você deve ter em vista, nem que seja mais um passo.

Dia após dia, no advento da eternidade, do infinito
não se intimide ou se retraia com a dor ou o medo.
Se tu se curvas diante estas pedras no caminho
encontrar a saída será sempre mais difícil.

Assim faça de sua vida o seu sentido.
Se lembra do começo desse poema. Do livro.
Lembre que eu falei de um autor maior,
que, para não nos mimar, não nos agrada sempre.

Em partes eu estava certo, coberto de razão.
Algum autor existe e ele é você, ou está em você.
Lugar para ele se instaurar existe em seu intimo.
Do seu coração ao seu cérebro existe uma imensidão.

Mundo, universo, ser, são coisas que se misturam,
existe o universo para o homem e o homem para o universo.
Alguém discorda? Espero que não, que tenha entendido,
que concordem com texto, mas concordem por realmente concordar.

Ainda que seja difícil ser o autor, ser quem cria,
pensa e decide o rumo do destino, ainda é o melhor.
Em algum momento você verá isso com clareza,
você sabe que tenho a razão.

E já me preparo para dar fim ao texto, a este texto.
Que não se faz mais necessário, útil ou agradável.
Não me esqueci do personagem que criei. Ainda sou responsável.
Irá morrer? Não, claro que não. Ele irá para a sua história.

Perder mais tempo criando-o é bobagem, pois ele já existe,
mais do que um simples personagem, espero eu.
Oportunidades para você prosseguir a história vão surgir,
de agora em diante aproveite-as.

Te crie e recrie, como for necessário,
fazer um personagem é fácil, ele só precisa ser algumas coisas:
feliz, feliz, feliz e muito feliz
desde o título até o FIM.

Que você goste de escrever, de criar, imaginar.
Você sabe por onde começar?
Permita uma última dica: arrume um enredo.
A história é basicamente seu enredo.

Esta poesia, sem rimas, com um único personagem,
pessoa esta que nem está mais aqui,
ter tido tantos versos foi sorte, foi um devaneio.
Tais versos se encerram, sua mensagem não.

Oportunidades. Sempre surgirão novas, nos encontraremos ainda.
Um texto talvez em que você converse comigo, não esse contrário.
Grande fim? Não, não é necessário, só um até mais.
Abraço!

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